Na noite. Na Balada. Três amigos.
Um deles sai e os outros dois começam um diálogo:
- Puta que pariu quantas vezes eu já falei. Não toca nesse assunto que senão ele não pára mais de falar, mano.
- O cara exagera né?
- Porra! Só fala que isso não pode, não tá certo, que o mundo tá todo virado.
- Mas não dá a solução, aí é fácil!
- Eu quero é que o mundo se foda, se eu tiver minha grana, meu trampo e meu carro. Pagar minhas contas meus vícios, eu não tô nem aí pro otário do flanelinha ou a porra da guerra sei lá eu aonde.
- É eu concordo, o cara até tem um pensamento correto e tal, mas aí, vai trabalhar de quê? Vai ser quem na vida? Prefiro eu me dar bem, porra, não é?
- O cara fala muito, enche o saco, a gente perde a balada só falando nisso.
- Vamo pegar mina então, ele tá no banheiro.
- Ahaha! Demorou.
A noite seguiu como todas as outras.
Bebida. Mulheres. Som alto.
Todos jovens, querendo ser únicos, diferentes.
Todos de pólo,
Todos com um copo,
Todos pagando pelo camarote,
Todos balançando a cabeça por uma mesma música,
Todos tentando ser exatamente tudo o que não são realmente,
Todos se consideram felizes, aproveitando a vida do mesmo jeito que todos os outros todos.
- Que vida de merda eles devem ter.
Na saída, ainda de madrugada um deles vai ao carro com uma garota enquanto o outros dois conversam pra gosto de um, e tortura do outro. Não era bela, muito menos rica mas pintava o rosto e o cabelo, se vestia e agia como se fosse e se sentia naquele momento, sabe-se lá porque, sortuda também.
Dentro do carro. Som baixo. Banco da frente.
Mãos inquietas, rápidas e descobridoras. Beijos sem pausa, sem carinho e sem atenção. O que importa realmente, todos sabem, é o que acontece mais embaixo.
Não haviam movido uma peça de roupa pra fora do corpo, apenas as entortaram um pouco.
Um cano. Uma janela. Uma frase:
- Perdeu playboy! Vai saindo sem barulho, filho da puta, sem barulho!
Recuperando o ar, que irônico.
- Calma cara! Calma!
- CARA é o caralho! Abre essa porra senão você e a puta aí vão pra vala, porra!
A garota, que já não se sentia tão sortuda assim, não se movia. Em choque com a mão na boca e a cabeça a mil, tremia. No fundo sabia ser descartável.
O rapaz não pretendia reagir, torcia para que os amigos estivessem perto ou algo assim, abaixou pra pôr o tênis e sair. Tinha se cagado todo.
Tudo parecia solucionado, o marginal levaria o carro, não queria a garota, queria o carro, queria pedra. Pensava que finalmente ia cheirar um pó com o dinheiro do assalto, o primeiro do semestre, quando um porteiro de um prédio vizinho ao local do carro estacionado percebeu que a garota estava a chorar e resmungar, pôde ver o ladrão mas não o ferro na sua mão. Pensou em furto, estupro, desceu até a porta e fazendo o seu dever de cidadão resmungou alguma coisa alto na rua.
O som da voz do senhor Carlos, porteiro desde de criancinha, ecoou como uma sirene de gambé para o assaltante, no susto empurrou o moleque que caiu, a garota sem sorte correu gritando e tropeçando nas próprias lágrimas.
Um tiro. Uma fuga. Sangue. Muito sangue.
O rapaz estava inteiro, chorava caído, a garota sumira e fora pedir ajuda aos berros.
Os seguranças da balada, motoristas e populares se agrupavam, a ambulância já vinha mas o porteiro não estava mais lá. Acabava naquele instante os 54 anos bem vividos, dizia ele.
Mulher, filha e neto chorariam mais tarde, com a morte, com as dívidas.
Passaram-se uns tempos, e os amigos se reencontraram.
O que sofrera o ataque sentia medo, não de sofre um assalto ou algo assim, mas do amigo chato de quem falara no fatídico dia.
Sentia vergonha pela primeira vez, imaginava as conversas com o amigo, pensava nele gritando:
- Mais um pobre que morre pra salvar o carro do playboy!
Não havia culpa sobre ele, mas havia o entendimento. Agora ele entendera.
Se um papo não é o suficiente para tornar a visão mais aguçada, mais sagaz sobre certos problemas que nos rodeia, nada melhor então, que um cano gelado na orelha pra tornar a aula, digamos, mais prática.
Na tarde. Num bar.
Sentaram, beberam e conversaram.
Ninguém nunca mais tocou no assunto. Todos, de certa forma, se sentiam culpados.
E a culpa é o gole mais seco que se pode dar.
Quanto a garota. Ela anda vagando pelas baladas que estão na moda, vestindo roupas genéricas e algumas de grife, que estão na moda, bebendo o que ainda está na moda e dançando o que está na moda.
Continua com 26 com cabeça de 15. Certo dia o rapaz pensou tê-la visto, mas nada certo.
Ganhou mês passado um jantar grátis em um restaurante por sorteio.
Se sentiu sortuda novamente e teve medo de ir receber o prêmio,
só relaxou e foi até o estabelecimento quando leu num jornal qualquer da região que fora ela e mais cem as vencedoras.
- Ufa! Que sorte! Pensou.
Estou dando ao seu blog dois selos (que mala esse Ary), pode pega-los no meu Blog na postagem "Selos"
ResponderExcluirAchava que isso era uma viagem... mas vi que faz sentido na blogosfera. É a rede!
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http://aryneto.blogspot.com