Era final de tarde, ventava.
O rapaz entra no vagão e logo se sente em casa. Ali era mais quente, seguro. Pensava na garota que vivia na mesma cidade, mas a kms de distância, de sua casa, e de sua classe social.
Ouvia o som alto de um aparelho de celular. Isso não lhe atormentava, lhe dava compaixão. Seu sono de trabalhador era prorrogado em pequenas parcelas de breves cochilos em pé, no chacoalhar do movimento do trem, e entre um e outro zumbido agudo, que os trilhos ditatorialmente lançavam aos seus ouvidos.
Nos momentos em que abria os olhos, perseguia as luzes que lá fora passavam rápidas. Eram luzes e muros inofensivos e sem valor, de alguma rua, casa ou prostíbulo da zona leste. Mas seus olhos não viam a sujeira, e sim as cores e os rastros que as luzes largavam ao caminho, e por seguinte, as formas quase que artísticas que as combinações criavam nas diversas velocidades em que o trem investia. Pensava: - Daqui a pouco eu chego!
Imaginava naquela fração de momento como seriam as luzes do outro lado da cidade. Se haviam outras formas, outras cores. Lá, ele só ia para trabalhar, e sempre na parte clara do dia.
Lembrava-se dos anúncios elegantes e sinceros que podia avistar durante sua caminhada até o serviço. Lhe prometiam uma vida muito boa e farta, e por isso se orgulhava de saber que estava no caminho certo. Afinal, era jovem, trabalhador e obstinado. Nunca pensara, entretanto, em estudar, achava banal e não tinha tempo para isso. Precisava se sustentar e buscar aquilo que os anúncios pediam para ele ter. Um carro, uma moto, uma casa, uma esposa, boas roupas, um bom celular, bons amigos, boa educação, boa aparência, bom humor e é claro, um ótimo emprego. Seu patrão não era bom, nem mal, e isso fazia dele um bom patrão. Seu emprego não pagava bem, mas também não pagava mal, e isso fazia dele um empregado esperançoso, pretendia dia após dia vencer, ser alguém de muita utilidade para a empresa e nunca mais parar. Quer dizer, até que enfim tivesse encontrado a felicidade. Porém lhe faltava algo. Ele queria fazer parte de algo, queria fazer parte da roda de pessoas bonitas que bebiam cerveja sorridentes no bar em frente a uma faculdade que havia no meio do seu trajeto diário. Já tentara uma aproximação anteriormente, mas por mais educado que fossem aqueles estranhos, ele não tinha o código correto, a combinação de números, marcas e cabelo liso que aqueles possuíam. Por isso, sem se queixar, voltaria novamente quando tivesse a combinação, e assim poderia pagar uma cerveja àquela garota que tinha quatro sobrenomes diferentes, mas só se lembrava do primeiro. - Merda, como era mesmo? Refletiu.
Naquele momento o trem andava calmo, já mais vazio, encostou-se em uma das portas do vagão, que servem de assento para quem está de pé, e olhou novamente pelo vidro da janela. Perseguia as luzes hipnoticamente, fazia isso até sentir-se tonto. Esquecia-se de trás para frente de tudo que pensara naquele pequeno momento. O dia havia sido difícil e estava faminto. Tentava abrir os olhos pesados de sono para continuar a ver as combinações, que começavam a serem cortadas cada vez mais por períodos negros que as intercalavam, misturando luz, cor, sono e sonho. Tentou pensar em algo real para não adormecer. Mas a voz do vendedor de amendoim cessara. A lembrança da garota veio então em sua mente, que afundava de forma densa em torpor, entregando-o aos encantos de um sono profundo.
- Maria! Gritou de repente, acordando de súbito assustado. Esse era o primeiro nome da menina.
Olhou ao redor, estava sozinho. A estação que esperava não era nem a próxima. Sentou-se ali mesmo, no chão. Ergueu-se um pouco para conferir como as luzes passavam lá fora, distantes. Piscou os olhos como em recusa ao seu destino já escrito e adormeceu sem medo, sem resistência.
Caramba, isso é tão sincero que as pessoas só vão aceitar se for feito como ficção. Vamos gravar nas férias, vc atua e dirige, eu faço a fotografia e narro.
ResponderExcluirAry