Venho publicar em alguns próximos posts, curtas interessantes. No de hoje destaco o roteiro incrível dessa obra que além de muito original é divertidíssima.
Aproveitem.
"A Invasão do Alegrete"
Ficha Técnica
Roteiro Diego Müller, Davi Pires Direção de Arte Eduardo Antunes Empresa produtora GM, 2 Filmes Figurino Adriana Nascimento Borba Maquiagem Nancy Marignac Direção de produção Geraldo Borowski Produção Executiva Pablo Müller Direção de Fotografia Juliano Lopes Montagem Vicente Moreno Música Pirisca Grecco Desenho de Som Gabriela Bervian
Prêmios
Melhor Ator no Festival de Gramado 2009
Melhor Roteiro no Festival de Gramado 2009
Melhor Filme no Festival do Juri Popular 2010
Melhor Roteiro no Mostra Gaúcha do Festival de Gramado 2009
Melhor Média-Metragem no Festival de Cinema na Floresta 2010
Melhor Ator no Santa Maria Vídeo e Cinema 2009
Melhor Filme - Júri Popular no Santa Maria Vídeo e Cinema 2009
Festivais
Goiânia Mostra Curtas 2009
Cineme-SE 2010
FestCine Amazônia 2009
Festival de Artes Audiovisuales de La Plata - FESAALP 2010
Festival de Cinema de Ribeirão Preto 2009
Festival Manuel Padeiro de Cinema e Animação 2009
Festival de Cinema de Ribeirão Pires 2009
Festival Aruanda do Audiovisual Universitário 2009
segunda-feira, dezembro 27, 2010
domingo, dezembro 26, 2010
As Noites São Sempre Iguais.
Na cena três amigos, uma pequena sala, uma mesa.
Sentados a horas, chateados pelo tédio e pela fumaça do cigarro insistente no ar sem movimento.
Meia garrafa de conversa fora, derrubando o sistema e os governos mais de dez vezes nas palavras, convencendo um ao outro de que viver daquele jeito ainda era heróico ou como dizem, poético.
Sentiam a nostalgia de alguns momentos passados, sentiam o rodar do ponteiro do relógio.
Um deles o mais jovem podia sentir o gosto do tabaco rigoroso na boca, quando abriu-a e disse:
- As vezes eu me esqueço, de que eu sou um playboy otário!
Ninguém se pronunciou após aquilo. Nada precisava mais ser dito.
Talvez todos os anos de conversas, ideologias e planos na verdade se resumiam naquela frase, naquela depressão.
Estavam vencidos antes de começarem a guerra, lutaram por algo perdido, assim como o fizeram muitos antes deles, mas por alguma razão que ninguém explica, todos sempre acham que farão a diferença, ou que apenas viverão com diferença.
Naquela noite eles entenderam pela primeira vez, que a anomalia também faz parte do sistema.
E isso lhes davam calafrios só de pensamento.
Se despediram e nunca mais desde aquele dia se encontraram novamente.
Dizem por aí que algum estudante de alguma faculdade de esquerda citou um deles em alguma manifestação banal. Talvez seja isso. Talvez a idéia persista, consumindo-se da vida de quem a cria.
Porque quem idealiza nunca consegue todas as respostas precisas e isso é pior do que a imperfeição, para tais paladares 'pensantes'.
As noites são portanto, de forma estranha, sempre iguais.
Sentados a horas, chateados pelo tédio e pela fumaça do cigarro insistente no ar sem movimento.
Meia garrafa de conversa fora, derrubando o sistema e os governos mais de dez vezes nas palavras, convencendo um ao outro de que viver daquele jeito ainda era heróico ou como dizem, poético.
Sentiam a nostalgia de alguns momentos passados, sentiam o rodar do ponteiro do relógio.
Um deles o mais jovem podia sentir o gosto do tabaco rigoroso na boca, quando abriu-a e disse:
- As vezes eu me esqueço, de que eu sou um playboy otário!
Ninguém se pronunciou após aquilo. Nada precisava mais ser dito.
Talvez todos os anos de conversas, ideologias e planos na verdade se resumiam naquela frase, naquela depressão.
Estavam vencidos antes de começarem a guerra, lutaram por algo perdido, assim como o fizeram muitos antes deles, mas por alguma razão que ninguém explica, todos sempre acham que farão a diferença, ou que apenas viverão com diferença.
Naquela noite eles entenderam pela primeira vez, que a anomalia também faz parte do sistema.
E isso lhes davam calafrios só de pensamento.
Se despediram e nunca mais desde aquele dia se encontraram novamente.
Dizem por aí que algum estudante de alguma faculdade de esquerda citou um deles em alguma manifestação banal. Talvez seja isso. Talvez a idéia persista, consumindo-se da vida de quem a cria.
Porque quem idealiza nunca consegue todas as respostas precisas e isso é pior do que a imperfeição, para tais paladares 'pensantes'.
As noites são portanto, de forma estranha, sempre iguais.
terça-feira, dezembro 21, 2010
Sobre Amigos, sobre os Jovens, sobre a Sorte.
Na noite. Na Balada. Três amigos.
Um deles sai e os outros dois começam um diálogo:
- Puta que pariu quantas vezes eu já falei. Não toca nesse assunto que senão ele não pára mais de falar, mano.
- O cara exagera né?
- Porra! Só fala que isso não pode, não tá certo, que o mundo tá todo virado.
- Mas não dá a solução, aí é fácil!
- Eu quero é que o mundo se foda, se eu tiver minha grana, meu trampo e meu carro. Pagar minhas contas meus vícios, eu não tô nem aí pro otário do flanelinha ou a porra da guerra sei lá eu aonde.
- É eu concordo, o cara até tem um pensamento correto e tal, mas aí, vai trabalhar de quê? Vai ser quem na vida? Prefiro eu me dar bem, porra, não é?
- O cara fala muito, enche o saco, a gente perde a balada só falando nisso.
- Vamo pegar mina então, ele tá no banheiro.
- Ahaha! Demorou.
A noite seguiu como todas as outras.
Bebida. Mulheres. Som alto.
Todos jovens, querendo ser únicos, diferentes.
Todos de pólo,
Todos com um copo,
Todos pagando pelo camarote,
Todos balançando a cabeça por uma mesma música,
Todos tentando ser exatamente tudo o que não são realmente,
Todos se consideram felizes, aproveitando a vida do mesmo jeito que todos os outros todos.
- Que vida de merda eles devem ter.
Na saída, ainda de madrugada um deles vai ao carro com uma garota enquanto o outros dois conversam pra gosto de um, e tortura do outro. Não era bela, muito menos rica mas pintava o rosto e o cabelo, se vestia e agia como se fosse e se sentia naquele momento, sabe-se lá porque, sortuda também.
Dentro do carro. Som baixo. Banco da frente.
Mãos inquietas, rápidas e descobridoras. Beijos sem pausa, sem carinho e sem atenção. O que importa realmente, todos sabem, é o que acontece mais embaixo.
Não haviam movido uma peça de roupa pra fora do corpo, apenas as entortaram um pouco.
Um cano. Uma janela. Uma frase:
- Perdeu playboy! Vai saindo sem barulho, filho da puta, sem barulho!
Recuperando o ar, que irônico.
- Calma cara! Calma!
- CARA é o caralho! Abre essa porra senão você e a puta aí vão pra vala, porra!
A garota, que já não se sentia tão sortuda assim, não se movia. Em choque com a mão na boca e a cabeça a mil, tremia. No fundo sabia ser descartável.
O rapaz não pretendia reagir, torcia para que os amigos estivessem perto ou algo assim, abaixou pra pôr o tênis e sair. Tinha se cagado todo.
Tudo parecia solucionado, o marginal levaria o carro, não queria a garota, queria o carro, queria pedra. Pensava que finalmente ia cheirar um pó com o dinheiro do assalto, o primeiro do semestre, quando um porteiro de um prédio vizinho ao local do carro estacionado percebeu que a garota estava a chorar e resmungar, pôde ver o ladrão mas não o ferro na sua mão. Pensou em furto, estupro, desceu até a porta e fazendo o seu dever de cidadão resmungou alguma coisa alto na rua.
O som da voz do senhor Carlos, porteiro desde de criancinha, ecoou como uma sirene de gambé para o assaltante, no susto empurrou o moleque que caiu, a garota sem sorte correu gritando e tropeçando nas próprias lágrimas.
Um tiro. Uma fuga. Sangue. Muito sangue.
O rapaz estava inteiro, chorava caído, a garota sumira e fora pedir ajuda aos berros.
Os seguranças da balada, motoristas e populares se agrupavam, a ambulância já vinha mas o porteiro não estava mais lá. Acabava naquele instante os 54 anos bem vividos, dizia ele.
Mulher, filha e neto chorariam mais tarde, com a morte, com as dívidas.
Passaram-se uns tempos, e os amigos se reencontraram.
O que sofrera o ataque sentia medo, não de sofre um assalto ou algo assim, mas do amigo chato de quem falara no fatídico dia.
Sentia vergonha pela primeira vez, imaginava as conversas com o amigo, pensava nele gritando:
- Mais um pobre que morre pra salvar o carro do playboy!
Não havia culpa sobre ele, mas havia o entendimento. Agora ele entendera.
Se um papo não é o suficiente para tornar a visão mais aguçada, mais sagaz sobre certos problemas que nos rodeia, nada melhor então, que um cano gelado na orelha pra tornar a aula, digamos, mais prática.
Na tarde. Num bar.
Sentaram, beberam e conversaram.
Ninguém nunca mais tocou no assunto. Todos, de certa forma, se sentiam culpados.
E a culpa é o gole mais seco que se pode dar.
Quanto a garota. Ela anda vagando pelas baladas que estão na moda, vestindo roupas genéricas e algumas de grife, que estão na moda, bebendo o que ainda está na moda e dançando o que está na moda.
Continua com 26 com cabeça de 15. Certo dia o rapaz pensou tê-la visto, mas nada certo.
Ganhou mês passado um jantar grátis em um restaurante por sorteio.
Se sentiu sortuda novamente e teve medo de ir receber o prêmio,
só relaxou e foi até o estabelecimento quando leu num jornal qualquer da região que fora ela e mais cem as vencedoras.
- Ufa! Que sorte! Pensou.
Um deles sai e os outros dois começam um diálogo:
- Puta que pariu quantas vezes eu já falei. Não toca nesse assunto que senão ele não pára mais de falar, mano.
- O cara exagera né?
- Porra! Só fala que isso não pode, não tá certo, que o mundo tá todo virado.
- Mas não dá a solução, aí é fácil!
- Eu quero é que o mundo se foda, se eu tiver minha grana, meu trampo e meu carro. Pagar minhas contas meus vícios, eu não tô nem aí pro otário do flanelinha ou a porra da guerra sei lá eu aonde.
- É eu concordo, o cara até tem um pensamento correto e tal, mas aí, vai trabalhar de quê? Vai ser quem na vida? Prefiro eu me dar bem, porra, não é?
- O cara fala muito, enche o saco, a gente perde a balada só falando nisso.
- Vamo pegar mina então, ele tá no banheiro.
- Ahaha! Demorou.
A noite seguiu como todas as outras.
Bebida. Mulheres. Som alto.
Todos jovens, querendo ser únicos, diferentes.
Todos de pólo,
Todos com um copo,
Todos pagando pelo camarote,
Todos balançando a cabeça por uma mesma música,
Todos tentando ser exatamente tudo o que não são realmente,
Todos se consideram felizes, aproveitando a vida do mesmo jeito que todos os outros todos.
- Que vida de merda eles devem ter.
Na saída, ainda de madrugada um deles vai ao carro com uma garota enquanto o outros dois conversam pra gosto de um, e tortura do outro. Não era bela, muito menos rica mas pintava o rosto e o cabelo, se vestia e agia como se fosse e se sentia naquele momento, sabe-se lá porque, sortuda também.
Dentro do carro. Som baixo. Banco da frente.
Mãos inquietas, rápidas e descobridoras. Beijos sem pausa, sem carinho e sem atenção. O que importa realmente, todos sabem, é o que acontece mais embaixo.
Não haviam movido uma peça de roupa pra fora do corpo, apenas as entortaram um pouco.
Um cano. Uma janela. Uma frase:
- Perdeu playboy! Vai saindo sem barulho, filho da puta, sem barulho!
Recuperando o ar, que irônico.
- Calma cara! Calma!
- CARA é o caralho! Abre essa porra senão você e a puta aí vão pra vala, porra!
A garota, que já não se sentia tão sortuda assim, não se movia. Em choque com a mão na boca e a cabeça a mil, tremia. No fundo sabia ser descartável.
O rapaz não pretendia reagir, torcia para que os amigos estivessem perto ou algo assim, abaixou pra pôr o tênis e sair. Tinha se cagado todo.
Tudo parecia solucionado, o marginal levaria o carro, não queria a garota, queria o carro, queria pedra. Pensava que finalmente ia cheirar um pó com o dinheiro do assalto, o primeiro do semestre, quando um porteiro de um prédio vizinho ao local do carro estacionado percebeu que a garota estava a chorar e resmungar, pôde ver o ladrão mas não o ferro na sua mão. Pensou em furto, estupro, desceu até a porta e fazendo o seu dever de cidadão resmungou alguma coisa alto na rua.
O som da voz do senhor Carlos, porteiro desde de criancinha, ecoou como uma sirene de gambé para o assaltante, no susto empurrou o moleque que caiu, a garota sem sorte correu gritando e tropeçando nas próprias lágrimas.
Um tiro. Uma fuga. Sangue. Muito sangue.
O rapaz estava inteiro, chorava caído, a garota sumira e fora pedir ajuda aos berros.
Os seguranças da balada, motoristas e populares se agrupavam, a ambulância já vinha mas o porteiro não estava mais lá. Acabava naquele instante os 54 anos bem vividos, dizia ele.
Mulher, filha e neto chorariam mais tarde, com a morte, com as dívidas.
Passaram-se uns tempos, e os amigos se reencontraram.
O que sofrera o ataque sentia medo, não de sofre um assalto ou algo assim, mas do amigo chato de quem falara no fatídico dia.
Sentia vergonha pela primeira vez, imaginava as conversas com o amigo, pensava nele gritando:
- Mais um pobre que morre pra salvar o carro do playboy!
Não havia culpa sobre ele, mas havia o entendimento. Agora ele entendera.
Se um papo não é o suficiente para tornar a visão mais aguçada, mais sagaz sobre certos problemas que nos rodeia, nada melhor então, que um cano gelado na orelha pra tornar a aula, digamos, mais prática.
Na tarde. Num bar.
Sentaram, beberam e conversaram.
Ninguém nunca mais tocou no assunto. Todos, de certa forma, se sentiam culpados.
E a culpa é o gole mais seco que se pode dar.
Quanto a garota. Ela anda vagando pelas baladas que estão na moda, vestindo roupas genéricas e algumas de grife, que estão na moda, bebendo o que ainda está na moda e dançando o que está na moda.
Continua com 26 com cabeça de 15. Certo dia o rapaz pensou tê-la visto, mas nada certo.
Ganhou mês passado um jantar grátis em um restaurante por sorteio.
Se sentiu sortuda novamente e teve medo de ir receber o prêmio,
só relaxou e foi até o estabelecimento quando leu num jornal qualquer da região que fora ela e mais cem as vencedoras.
- Ufa! Que sorte! Pensou.
Assinar:
Comentários (Atom)