Acordou. A sensação eufórica, abriu os olhos que apenas repousavam sem sono, reclamou.
A cama expulsava sua paz como se fizesse de propósito. Lembrou. Duas meninas, jovens, no carro de madrugada, as narinas incômodas, inquietas. Seria o bastante para continuar, mas naquela noite apenas bebera cerveja com os amigos. Não se recorda se tomou outra coisa, mas foi apenas álcool.
Ele parado olhando tudo acontecer, na verdade nada aconteceu, apenas as conheceu por acaso e as ajudou, passou pela cabeça provocá-las e levá-las ao motel, mas na hora do impulso sobressaiu seu medo. Medo de quê? Só mais tarde entenderia.
Desembarcaram na esquina mais suja da cidade, sentiu medo, pena, e alívio principalmente. Não sabia ainda bem o porquê, mas sentia-se bem e não ter feito o que depois chamaria de "burrada". Enganou o arrependimento.
Mas no quarto em que estava sozinho tudo era uma caricatura que assustava o mais corajoso dos homens, tudo o lembrava da eterna companheira dos homens covardes. Era assim que se sentia.
Tentou entender o assunto do qual perdia o sono constantemente, precisava sentir novos ares, completar o que faltava, enchendo-se de coisa para fazer. Era noite, e nada havia.
Buscou ajuda espiritual, religiosa, trabalhista... mas a dor continuava.
Um dia a caminho de mais um médico, à noite é claro, sofreu um tropeço que já era irritantemente normal, que estragou-lhe um pé das havaianas e o fez jurar nunca mais andar com os dois pés no chão. Fugiria do tropeço como fugia de sua dor.
Não era sentimental nem nada, mas aquelas duas jovens daquela noite lá atrás lhe mostraram sua verdade, era um homem justo, fiel ao seus valores, e isso era demasiadamente chato, era um fardo que carregara porque adorava perguntas. Tudo começou na quinta série.
O relógio marcava o começo de mais um dia. E ele marcava o começo de mais uma espera, que era insaciável. Sentia-se preso à vida de um modo nada suicida.
Pensou em ligar para um antigo amor, mas sequer lembrou o nome da infeliz.
Pensou em virar fotógrafo, mas odiava lembranças.
Pensou em nunca mais pensar.
Desde então é feliz ao lado de Silvinha. Tem dois filhos e duas filhas.
Nunca mais deu carona a nenhum estranho.
Tem dias que a noite é "foda". Disso sabia.
Mas fingia, que não.
Descobrira ao lado da moça, que a resposta era a mais clichê possível. Teve de tomar o caminho mais longo até ela. Valera a pena, o caro leitor sabiamente deveria me perguntar.
Quer saber? Não brinque com essa coisa séria que é o pensar.
Deixe. Viva e deixe morrer.
"Pensou em ligar para um antigo amor, mas sequer lembrou o nome da infeliz.
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Preciso despertar essa senso poeta.
Parabéns meu caro.