quinta-feira, setembro 23, 2010

Os Olhos Daquele Cara!

Era quinta-feira, 22h00 da noite. Não fazia frio, o que já era de fato uma notícia boa.

Nasceu de pai sem nome e mãe de salário mínimo, logo no começo da vida perceberam sua deficiência vocal, era mudo.
A mãe se resolvia todo mês com o pouco dinheiro e muitos filhos, os quais não lembrava o nome exatamente devido o cansaço, mas que nunca esquecera um almoço ou jantar sequer.

Algum tempo depois...


Um cara magro e muito sujo nessa quinta-feira, entrou no trem, pedindo dinheiro através de um papel sujo e mau escrito que falava algo como: "Sou surdo e mudo, tenho fome e nenhum dinheiro!". Ele apenas o distribuiu entre os que aceitaram o papel e depois recolheu-os com a sorte de receber algum dinheiro. Uma moça lhe deu uma barra de cereal daquelas atléticas. Soou até sarcástico.
O rapaz deixou a dúvida se estava a juntar dinheiro para encarar mais uma noite triste e sem sentido cheirando cola, fumando crack e dependendo da quantia até uma carreira de coca.
A dúvida nunca existiu antes, mas esse cara tinha alguma coisa no olhar. Talvez nunca tivéssemos percebido os olhos dos pedintes recorrentes, mas desse em especial e sem motivo, tinha algo. Podia ser a pupila dilatada e o olho fundo com olheiras provocado pela última dose, ou era o puro grito de dor escondido no fundo dos mesmos, tão solitários e acostumados com a maldade e a exclusão. Aqueles olhos não faziam parte da sociedade, eram descartáveis e sabiam disso. Eram eles os espelhos que refletiam aos homens "civilizados" a realidade, eram eles que desmascaravam a violência invisível que aterroriza cidadãos do bem, e trabalhadores todos os dias.

É. Nunca saberemos, e talvez seja melhor assim, já que esses olhos ironicamente fizeram voltar um vestígio de esperança ao observador e fazia tempos que ele não sabia o que era isso.

Mesmo assim, nada muda.






ps. post de retorno e nova vida do blog!!


Gracias.